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POR SAMIA MALAS

Atualização científica constante é essencial para ter sucesso como um vet especialista

Leandro Zuccolotto Crivellenti fala seus trabalhos e realidade da área de nefrologia e urologia veterinárias

O médico-veterinário Leandro Zuccolotto Crivellenti, de Batatais-SP, é mestre e doutor em Medicina Veterinária pela UNESP- campus de Jaboticabal-SP, quando já neste momento, havia iniciado seu caminho de especialização em nefrologia e urologia veterinária. Com pós-doutorado também em nefrologia , atualmente é professor do programa Pós-graduação em Ciência Animal da Universidade de Franca (UNIFRAN), Diretor Científico do Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia Veterinária (CBNV), autor de diversos livros, editor-chefe da revista Investigação e coordenador do grupo de pesquisa em Nefrologia e Urologia Veterinária credenciado pelo CNPq. A seguir, confira um bate-papo que tivemos com esse profissional de renome sobre a realidade atual da nefrologia e urologia veterinárias no Brasil.

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Revista Nefrologia Veterinária: Quais os grandes desafios de quem atua na área, na rotina profissional de um nefrologista?

Leandro Zuccolotto Crivellenti: Os avanços na área da nefrologia acompanham proporcionalmente muitos dos avanços na veterinária e na medicina, isto porque se trata de uma especialidade abrangente, que envolve muitas áreas clínicas. Na medicina as primeiras biópsias renais foram realizadas no início dos anos 1900, mas a concretização do conhecimento sobre as doenças renais ocorreu após 50 anos, cujo notável aperfeiçoamento oferece hoje uma extraordinária visão dos mecanismos da doença. Acredito que o maior desafio para o médico-veterinário que está iniciando no mundo da nefrologia seja a falta de recursos para proporcionar um diagnóstico preciso e um tratamento adequado como são vistos nos grandes centros. Geralmente universidades, cujo cunho de pesquisa seja acentuada, agregam além de infraestruturas tecnológicas (ex. cistoscopia, ultrassonografia com doppler e microbolhas, elastografia, biópsia renal, etc.), importantes profissionais nas diferentes disciplinas, as quais se somam e trazem resolução de casos complexos. Para minimizar essa problemática e gastos desnecessários minha sugestão é que os nefrologistas criem redes integradas de investigação e desenvolvimento e que se aproximem dos Centros Universitários ou de grandes hospitais veterinários, num diálogo permanente entre generalistas, especialistas e todos os envolvidos em cada caso.

O profissional que deseja destacar-se no mercado deve estar sempre atualizado cientificamente, enxergando o paciente de forma ampla, não somente baseado nas novas diretrizes nefrológicas, mas de todas as outras áreas que possam interferir na qualidade de vida do seu paciente.

RNV: Diversos eventos e publicidade têm destacado o CBNUV como Colégio de Especialidade em ascensão no país. Como diretor científico, poderia comentar um pouco sobre o assunto?

Leandro: A área de nefrologia tem passado por profundas mudanças mundiais. A criação da IRIS (International Renal Interest Society), da IVRPS (International Veterinary Renal Pathology Service) e do WSAVA-RSSG (World Small Animal Veterinary Association – Renal Standardization Study Group) foram essenciais para alavancar a especialidade. No Brasil, o Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia Veterinária (CBNUV), desde sua fundação em 2011, tem se empenhado em congregar médicos-veterinários brasileiros interessados em Nefrologia e Urologia, e em divulgar o conhecimento relativo às doenças do trato urinário, motivos pelos quais temos elaborado anualmente diferentes eventos científicos! Em 2017 tivemos o Congresso Internacional de Nefrologia e Urologia (CINUV) em Belo Horizonte-MG; em 2018 o 2o Simpósio Paulista de Nefrologia do Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia em São Paulo -SP, o Encontro CBNUV no XV Congresso Internacional Fiavac/39o Congresso Brasileiro da Anclivepa que ocorreu no Rio de Janeiro – RJ, e o 1o Simpósio de Urologia do CBNUV, junto ao XIII Congresso Brasileiro de Cirurgia do CBCAV / III Congresso internacional de Cirurgia do CBCAV em Belém -PA. Parceria CBNUV foi marca registrada também no NephroScience – Superpet, Campinas-SP e na Sala Exclusiva junto ao Congresso MedVep, Curitiba-PR, que ocorreram no ano de 2019. Até o momento, para 2021, temos confirmado o Nefroscience no Congresso Vetscience, em Campinas-SP entre vários outras possibilidades. O CBNUV também tem como objetivo reconhecer, organizar conhecimento e divulgar os aspectos epidemiológicos, diagnósticos e terapêuticos das diferentes doenças em Nefrologia e Urologia Veterinárias, e também há intenção em assessorar e colaborar com entidades nacionais ou internacionais que executem trabalhos em Nefrologia e Urologia em animais, proporcionando constante aprimoramento técnico-científico das atividades relacionadas à Nefrologia e Urologia Veterinárias.

Diante da premissa que a nefrologia está em constante evolução, aconselho quem trabalha na área que esteja sempre próximo ao CBNUV, seja membro efetivo e participe de todos os eventos e decisões para uma nefrologia homogênea e de alta qualidade.

 

Diretoria do Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia Veterinária em Davis, na Califórnia, sede da IRIS (International Renal Interest Society) - Foto: Arquivo Pessoal

RNV: Como coordenador de grupo de pesquisa CNPq, quais têm sido as maiores novidades e avanços na área?

Leandro: As áreas de Nefrologia e Urologia são bastante diversificadas exigindo do nosso grupo de pesquisa reuniões e discussões constantes sobre casos clínicos e projetos de pesquisa. Como coordenador de grupo de pesquisa busco incentivar meus discentes de graduação, residência e pós-graduação à leitura e a discussão de trabalhos científicos relevantes com o objetivo de aguçar o senso crítico individual e coletivo e para que as ideias possam ser produtivas e replicáveis não somente para nossa realidade, mas que as pesquisas tornem-se competitivas com as realizadas em países de primeiro mundo.

RNV: A participação brasileira no IRIS Renal Week é sempre grande? Os temas das palestras esse ano na IRIS Renal Week estão bem direcionados à doença renal crônica. Essa é a maior preocupação de quem atua na área? Por quê?

Leandro: Em meados de 2017, o  CBNUV foi convidado a estabelecer parceria de colaboração com a International Renal Interest Society (IRIS. http://www.iris-kidney.com), com intuito de desenvolver cooperação científica no campo da nefrologia. A IRIS Renal Week, aconteceu de 19 a 24 de março de 2018, na Universidade UC-Davis, Califórnia, onde estiveram presentes: Luciano Henrique Giovaninni (presidente), Karine Kleine Figueiredo dos Santos (vice-presidente), Leandro Zuccolotto Crivellenti (Diretor Cientifico), Fernando Felippe de Carvalho (1° Secretario), Hugo Cardoso Martins Pires (2° Secretario), Renato Variz de Souza (1° Tesoureiro), Jorge Piovesan Conti (2° Tesoureiro), Júlio César Cambraia Veado (Conselho Deliberativo), Priscylla Tatiana Chalfun Guimarães Okamoto (Conselho Deliberativo) e Paula Bilbau Sant’Anna (Conselho Fiscal). Esse ano a IRIS Renal Week aconteceria nos dias 16 a 19 de março, mas por conta da situação atual, ela foi adiada para março do ano que vem, entre os dias 15 e 20. Esperamos poder comparecer com parte do CBNUV e representar o Brasil tanto nas discussões quanto com trabalhos científicos, os quais serão divulgados no evento.Um dos macrotemas do evento será “a boa, e velha” doença renal crônica, uma vez que apesar de não ser a única preocupação, configura-se como a afecção mais comum do trato urinário em todo o mundo. Dessa forma, buscamos constantemente marcadores para diagnóstico precoce e tratamentos mais precisos tanto para nossos animais quanto também para os seres humanos.

RNV: O que o especialista em Nefrologia e Urologia precisa ter?

Leandro: Atualmente não temos especialistas na área de Nefrologia e Urologia Veterinária no Brasil. O CBNUV futuramente irá conceder certificados de especialização em Nefrologia e Urologia Veterinárias, intitulado TEENUV (Título de Especialista Efetivo em Nefrologia e Urologia Veterinárias), a fim de qualificar membros dentro da profissão. Para ser um especialista, o médico-veterinário, após sua comprovação de atuação na área, deverá realizar uma prova estabelecida pelo CBNUV, a qual englobará diretrizes para utilização dos procedimentos diagnósticos e terapêuticos, objetivando a qualidade dos cuidados de doenças renais e do trato urinário dos nossos pacientes.

RNV: Como as doenças renais muitas vezes ocorrem como consequência de doenças sistêmicas, os tutores costumam chegar no “especialista” em nefro com o animal já bastante debilitado. O que tem sido feito para mudar essa realidade?

Leandro: Infelizmente essa ainda é uma realidade bastante comum. As especialidades, de modo geral, ainda são vistas no Brasil como a “última chance”, pois é comum que o médico- veterinário generalista realize várias tentativas de tratamentos antes do encaminhamento do paciente. Atualmente, com o advento da globalização e acessibilidade ao conhecimento por parte dos tutores, diversas situações têm exigido a presença de profissionais especializados tanto para se chegar ao diagnóstico definitivo, quanto para acompanhamento do tratamento. Acredito que em um futuro bem próximo os médicos-veterinários generalistas perceberão que os colegas especialistas agregam ao tratamento, possibilitando inclusive que os pacientes sobrevivam por mais tempo e com qualidade, retroalimentando a cadeia generalista-especialista-generalista.

RNV: Suas pesquisas mais recentes são: “Avaliação de lesão renal aguda por biópsia renal, ultrassonografia e enzimúria em cadelas com piometra” e “Estudo da melhor trajetória e calibre de agulhas utilizadas nos procedimentos de biópsia renal em gatos.” Por que a escolha desses temas e o que pode destacar sobre eles?

Leandro: Minha equipe é bastante diversificada e trabalhamos de forma bastante unida. Atualmente meu grupo de pesquisa abrange desde graduandos que estão fazendo pela primeira vez uma pesquisa de iniciação científica até pesquisadores associados nacionais e internacionais. Essa mistura nos motiva a cada dia melhorar, bem como chegarmos, todos juntos, mais longe.

A primeira pesquisa citada faz parte de um projeto de pesquisa financiado pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), uma das principais agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica do país. Junto desse projeto temos vários pesquisadores envolvidos e buscamos encontrar métodos diagnósticos precoces menos invasivos não somente para a veterinária, mas também para medicina humana, já que o quadro séptico que pode acompanhar cadelas com piometra se assemelha as consequências da sepse no Homem. Acreditamos que com essa pesquisa muitos animais e pessoas possam ser salvas no futuro.

O segundo trabalho é uma iniciação científica, a qual minha orientada Maria Eduarda R. O. Cunha e eu, bem como outros pesquisadores (Doutoranda Ma. Suellen R. Maia – Unesp Botucatu e Profa. Dra. Marcela Aldrovani – UNIFRAN), estamos verificando a melhor forma de realizar biópsia renal em gatos. Essa pesquisa também é financiada pela FAPESP e poderemos responder, muito em breve, esse importante questionamento, trazendo maior segurança e confiabilidade à técnica.

RNV: Você é autor de quatro livros: “Casos de Rotina em Medicina Veterinária de Pequenos Animais”, “Casos de Rotina Cirúrgica em Medicina Veterinária de Pequenos Animais” e “Bulário Médico-Veterinário Cães e Gatos”, que resultou na criação do aplicativo e livro BoolaVet. Como surgiu a ideia de realizar essas obras e como elas contribuem na rotina de clínica veterinária dos profissionais?

Leandro: O “Casos de Rotina em Medicina Veterinária de Pequenos Animais” (MedVet, 2012) foi nosso primeiro livro publicado. Foi originado de um “manual de anotações pessoais” que agregava informações obtidas de congressos, livros, artigos nacionais e internacionais, bem como protocolos de Hospitais Veterinários de referência nacional. Tinha um caráter mais prático, sumarizado de descrição e de formas diagnósticas das doenças buscando, principalmente, trazer alternativas terapêuticas para as enfermidades mais comuns à clínica médica e cirúrgica de pequenos animais. Diante da popularização do nosso acanhado “manual”, por cópias entre estudantes de veterinária de diversas faculdades do país, o “Casos de Rotina em Medicina Veterinária de Pequenos Animais” foi idealizado por mim e minha esposa, Profa. Dra. Sofia Borin Crivellenti – UFU, com irrestrito apoio e incentivo de nossos colegas colaboradores e da Editora MedVet. O livro apresenta-se em capítulos, subdividido em tópicos pertinentes às diversas áreas, onde os autores – médicos-veterinários, ex-residentes, especialistas e doutores atuantes nas respectivas áreas, foram convidados a revisarem os dados já contidos em cada capítulo, atualizá-los e, de acordo com sua experiência clínica, adicionar informações que julgassem relevantes.

Para nossa felicitação a primeira edição foi um sucesso enorme esgotando-se pela segunda vez ainda em 2014, pouco mais dois anos após o seu lançamento. Na segunda edição (MedVet, 2015) buscamos manter as mesmas características, inserimos novos capítulos e atualizamos todo o conteúdo. Atualmente é o livro de veterinária de pequenos animais mais vendido no Brasil, e em 2019 passou a estar disponível para os países hispano-americanos em sua versão em espanhol (Intermédica, 2019).

O “Casos de Rotina Cirúrgica em Medicina Veterinária de Pequenos Animais” foi uma continuidade do primogênito. Nasceu em 2019 após incentivo e motivação da comunidade Médico Veterinária e da dedicação e profissionalismo de todos envolvidos.

O BoolaVet foi advindo de um ideal empreendedor que teve a base científica o livro “Bulário Médico-Veterinário Cães e Gatos” e a necessidade de atualização constante  dos fármacos existentes no mercado. É inteiramente digital, interativo e atualizado, e possui a capacidade de fornecer ao médico-veterinário as dosagens e prescrições de medicamentos para suas indicações, específicas para cada animal.

O software foi criado em parceria com a Empresa Ensemble a partir de referências bibliográficas conceituadas e checado item por item por profissionais consagrados em cada área específica, nossos consultores especialistas.

RNV: Que dicas e/ou conselhos daria ao veterinário que está se especializando na área de Nefrologia e Urologia veterinárias?

Leandro: A dica primária é a necessidade de estudo aprofundado nas áreas de clínica e cirurgia veterinária previamente à expertise, visto que a área de Nefrologia e Urologia está atrelada a vários outros órgãos, podendo ser a causa ou a consequência de diversas enfermidades. Utilizar livros conceituados e atualizados é sempre a melhor forma para estudo individual e deve ser praticado rotineiramente. Além dos estudos individuais frequentar cursos, congressos e meios que possam trazer atualização são de extrema importância para não perder o cliente e ainda ser apto a diagnosticar a doença do paciente e tratá-lo da melhor forma preconizada. Em conjunto das citações anteriores creio que a residência médica nas grandes áreas (clínica e/ou cirurgia), bem como mestrado/doutorado e/ou cursos latu senso de qualidade são importantes para dar início a especialidade.

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