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Por Nathalia Barbosa Messas, Suellen Rodrigues Maia, Maria Eduarda R. O. Cunha e Leandro Z. Crivellenti

Do início à atualização constante: caminhos disponíveis ao profissional que deseja atuar na nefrologia e urologia veterinária

A carreira profissional do médico-veterinário inicia-se durante a graduação através de experiências e escolhas de acordo com as áreas de interesse. Incluindo neste aspecto, principalmente os estágios extracurriculares, curriculares e a iniciação científica. Estágios e treinamentos são importantes para identificação e conhecimento prático da área, promovendo ao aluno a vivênciada rotina dos veterinários e residentes dentro da universidade, em clínicas veterinárias particulares e/ou de profissionais especializados autônomos que se deslocam ao local de atendimento (domicílio ou estabelecimentos particulares). {PAYWALL_INICIO}Por outro lado, a iniciação científica é um diferencial importante durante esse período para aqueles que pretendem vivenciar o desenvolvimento da ciência através de pesquisas, e também se aprofundar em um determinado âmbito profissional, nesta circunstância, nas linhas de pesquisa que envolvam a nefrologia e urologia de pequenos animais.

Iniciação científica

Realizar uma iniciação científica proporciona ao futuro médico-veterinário, que deseja seguir a especialidade em evidência, o primeiro contato com a realidade e as dificuldades enfrentadas pelos profissionais da área (quanto a promoção de avanços necessários à evolução da nefrologia e urologia veterinária), torna-o apto para leitura de artigos científicos (onde é possível aprender questões não abordadas durante a graduação) e o mantém constantemente atualizado sobre o tema, além de estimulá-lo a solucionar problemáticas ainda não elucidadas. Ter um projeto de pesquisa (que envolva a nefrologia e a urologia veterinária), principalmente quando este se encontra vinculado às agências de fomento, destaca o futuro profissional em meio ao mercado. Da mesma forma, os estágios extracurriculares e curriculares também contribuem para a construção de um bom currículo, o qual abrirá portas para as próximas etapas disponíveis, a citar: a pós-graduação lato sensu (residência médica e/ou aperfeiçoamento) e/ou a pós-graduação stricto sensu (mestrado, doutorado e pós-doutorado).

Graduanda analisando lâminas de tecido renal referentes ao seu projeto de iniciação científica

Residência

A residência ou aprimoramento em medicina veterinária, assim como na medicina não é etapa obrigatória para que a profissão seja exercida. Por apresentar 24 meses de duração, a residência na medicina veterinária acrescenta experiência clínica e/ou cirúrgica ao médico-veterinário, independente da especialização, sendo também um diferencial no ingresso do profissional no mercado de trabalho.

O trabalho do médico-veterinário especializado em nefrologia e urologia engloba não só questões que envolvam doenças primárias do sistema urinário, mas também outras doenças sistêmicas que repercutem sobre o mesmo, o que exige experiência em conhecimento clínico geral, do qual a residência se faz extremamente importante, possibilitando conhecimentos práticos aplicados à interpretação de sinais clínicos, exames laboratoriais, manejo e prognóstico, afim de, em conjunto com professores e/ou profissionais já consolidados na especialidade, garantindo a melhor condução dos casos.

Março Amarelo – Projeto pedagógico referente ao mês de conscientização mundial da prevenção de doenças renais

O que fazer depois da residência?

Após concluir a residência, o médico-veterinário pode procurar por outra formação Lato Sensu disponível, o aperfeiçoamento, ou então ingressar na pós-graduação Stricto Sensu, visando especializar-se de forma particular na área e se dedicar primordialmente a ela.  No entanto, é importante ressaltar que a residência não é considerada pré-requisito para que o profissional faça a especialização ou pós-graduação Stricto sensu, mas sua realização contribui para os processos seletivos, principalmente destas últimas modalidades.

Com duração mínima de 360 horas, o aperfeiçoamento tem o objetivo de auxiliar na edificação e atualizações específicas à especialidade que ajudarão o profissional no dia a dia de trabalho. Essa modalidade também é muito procurada por profissionais que querem desenvolver experiências, aprofundar-se no tema e enriquecer o currículo, tornando-o mais atraente para empresas. Vale ressaltar que, após concluir o curso, o estudante não recebe um diploma, mas um certificado, além do mesmo não conceder nenhuma titulação acadêmica ao profissional. Um ponto importante a ser citado é que o médico-veterinário concluinte do curso de aperfeiçoamentopode ser considerado especializado em nefrologia e urologia veterinária, mas não especialista. Esse título só é adquirido por prova, a qual é conduzida pelas entidades, como no caso da nefrologia e urologia, o Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia (CBNUV) e assegurado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV).

Paciente Pipoca após realizar sua consulta especializada – Foto arquivo pessoal

Importância da especialização

Como a nefrologia e a urologia veterinária é uma especialidade que está ganhando cada vez mais espaço, tanto pela desmistificação de conceitos propostos anteriormente, quanto pelo constante aprimoramento, atualizações e pesquisas que trazem novas perspectivas do manejo de pacientes com afecções do sistema urinário, a conclusão da especialização coloca o profissional em evidência em vários cenários do mercado. Isso porque, embora disponíveis principalmente em universidade e grandes centros, técnicas dialíticas para auxiliar no tratamento de pacientes com injúria renal aguda ou crônicos agudizados; técnicas minimamente invasivas para manejo de urólitos, diminuindo o tamanho da incisão, tempo de hospitalização, incidência de complicações no pós-operatório e garantindo rápida recuperação do paciente, são, por exemplo, técnicas que estão ganhando cada vez mais espaço, se tornando presentes também em clínicas veterinárias e hospitais particulares, fazendo da necessidade de profissionais especializados (que possuam conhecimento e experiência em tais manejos) uma realidade.

Discente do curso de mestrado aplicando a técnica de biópsia renal guiada por ultrassom em cão

Abrangendo a ciência, a academia e a extensão, a pós-graduação stricto sensu contribui, em importante parcela, para a especialização do médico-veterinário. Nessa categoria o mestrado e o doutorado são os cursos de maior procura pelo profissional. A maioria dos processos seletivos é formada pela avaliação do currículo do candidato, de seus conhecimentos específicos, sua proficiência em inglês e sua articulação durante uma entrevista formal. Avalia-se também, em alguns casos, o pré-projeto do candidato e a apresentação do mesmo,  focando na escrita e no conhecimento científico que o profissional possui ao se inscrever. Dependendo do programa em que se inserem e do orientador que conduz o aluno, a possibilidade de crescimento dentro de uma área de interesse é enorme. A diferença entre os cursos é basicamente o tempo de conclusão e consequentemente o aprofundamento dentro da especialidade. O mestrado tem em média 20-24 meses de duração, enquanto o doutorado possui geralmente em torno de 3-4 anos para a sua conclusão. 

Mestrado e o doutorado: aprofundamento teórico, prático e científico

Considerando a especialidade de foco da presente discussão, o mestrado e o doutorado podem ser passos fundamentais para o aprofundamento teórico, prático e científico do profissional que deseja militar na nefrologia e urologia veterinária. Ambos os cursos se pautam em produzir e divulgar a ciência como objetivo principal, sendo este alcançado pela condução de projetos de pesquisa originais que venham a preencher as lacunas do conhecimento. Para aqueles que estão inseridos na especialidade essa é uma chance única de contribuir cientificamente para os avanços na área de atuação elevando-a a outro patamar, inclusive de forma internacional, uma vez que a internacionalização do aluno também é uma possibilidade almejada.

Outra finalidade importante de tais cursos consiste em desenvolver as habilidades de docência do profissional. Nessa esfera o aluno é estimulado a dar aulas, cursos e palestras (na área de especialização) de forma dinâmica e comunicativa. Talvez essa seja uma das atividades mais desafiadora para o profissional, mas que adiciona, em muito, na formação final do mesmo. Além disso, essa é uma das atividades que permite a divulgação das pesquisas científicas que se encontram em desenvolvimento, situando o público de interesse (médicos-veterinários, alunos de graduação e comunidade) sobre os avanços na área, sendo esta uma forma crucial de integração da ciência com a realidade prática da especialidade e a sociedade.

Por fim, mas não menos importante, há a possibilidade de, junto do orientador e do grupo de pesquisa, conduzir também o atendimento prático da especialidade na instituição em que o curso se insere. Basicamente essa atividade é resumida em promover o atendimento específico dos quadros nefro-urológicos que sejam apresentados à universidade. E embora o foco seja os quadros de doenças que acometam o sistema urinário, muitas alterações fora desse sistema podem repercutir sobre o mesmo, o que faz do raciocínio clínico avançado e da atualização constante as competências mínimas dessa atividade. Muitos são os casos desafiadores que o profissional estará sujeito a manejar, mas é justamente a entrega de todo o conhecimento adquirido ao longo dos anos, em conjunto da experiência do orientador que faz com que essa atividade preencha o profissional no íntimo da sua vocação, e garante completar com maestria a formação daqueles que se aventuram na pós-graduação stricto sensu.

Torna-se mestre e/ou doutor é realmente uma aventura, de altos e baixos (não dá para negar). São anos intensos e preenchidos por momentos de incertezas, mas acima de tudo, e até mesmo acima do título, esse período pode ser um divisor de águas na carreira do profissional no que diz respeito ao conhecimento adquirido e à obtenção de crescimento profissional e pessoal, e com certeza vale cada segundo desde que haja dedicação, parceria e trabalho em conjunto entre aluno e orientador.

Parceria com Instituições internacionais

Outro adendo a ser mencionado é a possibilidade de fazer parceria com Instituições internacionais, as quais podem iniciar-se desde a iniciação cientifica, permitindo ao aluno fazer intercambio ainda mesmo na graduação e desenvolver parte da pesquisa no exterior. Após o termino da graduação existem o mestrado e doutorado Sandwich que abrem portas para várias oportunidades que vão muito além do conhecimento de modalidades na área da especialização, como o conhecimento de outra cultura, treinar um novo idioma e expandir a sua rede de networking. O programa apresenta duração de 4 a 12 meses, sendo a maior parte dos estudos realizados no Brasil e o restante na instituição no exterior. Para participar, o aluno deve estar matriculado em um programa no Brasil reconhecido pela CAPES. O processo seletivo é composto por algumas fases e etapas eliminatórias, como, análise de toda documentação solicitada, análise do mérito da proposta e a pertinênciado projeto a que está vinculado.

Pós-doutorado

Por último, a modalidade de pós-doutoramento é ainda pouco abordada, mas encontra-se em ascensão no país. Trata-se de um estágio pós-doutorado para aprimorar ainda mais as técnicas de pesquisa e também permite trocas de experiência no exterior, não sendo necessário cursar disciplinas e nem defender uma tese, portanto, o ‘pós-doc’ não é um título acadêmico.

Rumo à excelência

Sabe-se que uma medicina veterinária de excelência é praticada quando há uma ótima integração entre excelentes profissionais gerais e excelentes profissionais especializados, de modo que, as especialidades, incluindo a nefrologia e a urologia, estão em ascensão no país. Somando-se a isso, há também o fato de que o mercado de trabalho está cada vez mais competitivo, assim como, os tutores estão cada vez mais exigentes, de modo que, a especialização e a atualização constante dentro de uma área de escolha permitam o destaque do profissional em ambos os cenários. Portanto, diante das diferentes formas de capacitação dentro da especialidade, fica claro que o interesse despertado na graduação é só o início de um processo de especialização que envolverá, de forma crucial, a atualização constante pelos demais anos de atuação do profissional.

 
 

Lilian Stefanoni Ferreira Blumer

•Graduação em medicina veterinária pela Unesp Araçatuba; •Residência em clínica médica de pequenos animais pela Unesp Jaboticabal; •Mestre em medicina veterinária com ênfase em Nefrologia de cães e gatos pela Unesp Jaboticabal; •Professora de graduação e pós-graduação em cursos de medicina veterinária; •Atendimento autônomo em nefrologia de cães e gatos em clínicas e hospitais veterinários.

Lucas de Carvalho Navajas

• Médico-veterinário pela FMVZ USP; • Pós-graduação em cardiologia pela Anclivepa-SP; • Pós-graduação em docência para o ensino superior pela Unip; • Diretor de Regionais da Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária; • Membro do Conselho Consultivo da FEVERESP; • Sócio proprietário da Climev Especialidades Jundiaí; • Professor de Clínica Médica da Unip Campinas.

Thaynara Suellen Souza Sá

Graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Paulista – Campus Swift em 2019. Residente de Clínica Médica de Pequenos Animais da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

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